RILKE, CARTA 3

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Na terceira carta de Rilke para Franz Kappus em 23 de abril de 1903, o autor fala da solidão das obras de arte e da paciência que o artista precisa para vê-la amadurecer.

(...)"Obras de arte são de uma solidão infinta, e nada pode passar tão longe de alcançá-las quanto a crítica. Apenas o amor pode compreendê-las, conservá-las e ser justo em relação à elas. Dê razão sempre a si mesmo e a seu sentimento, diante de qualquer discussão, debate e introdução; se o senhor estiver errado, o crescimento natural de sua vida íntima o levará lentamente, com o tempo, a outros conhecimentos. Permita suas avaliações seguir o desenvolvimento próprio, tranquilo e sem perturbação, algo que, como todo avanço, precisa vir de dentro e não pode ser forçado nem apressado por nada. Tudo está em deixar amadurecer e então dar à luz. Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.
Não há nenhuma medida de tempo nesse caso, um ano nada vale, e mesmo dez anos não são nada. Ser artista significa: não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem o temos de que o verão possa vir depois. Ela vem apesar de tudo. Mas só chega para os pacientes, para os que estão ali como se a eternidade se encontrasse diante deles, com toda a amplidão e a serenidade, sem preocupação alguma. Aprendo isto diariamente, aprendo em meio a dores às quais sou grato: a paciência é tudo!" (...)

RILKE, CARTA 2

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A segunda carta de Rilke para o jovem Franz Kappus data de 05 de abril de 1903 e é muito breve, por conta do estado de saúde do remetente. Fala sobre a ironia.

(...)"Hoje eu dizer queria apenas duas coisas ao senhor. Primeiro, quanto à ironia.
Não se deixe dominar por ela, principalmente em momentos sem criatividade. Nos momentos criativos, procure fazer uso dela como de mais um meio para abarcar a vida. Usada com pureza, ela também é pura, e não é preciso envergonhar-se dela. Caso a intimidade seja excessiva, caso o senhor tema essa crescente intimidade com a ironia, volte-se para assuntos grandes e sérios, diante dos quais ela se torna pequena e desamparada. Procure o fundo das coisas: ali a ironia nunca chega. Assim, se o senhor seguir seu caminho à beira do que é grandioso, pergunte-se também se esse modo de compreender o mundo corresponde a uma necessidade de seu ser. Pois, sob a influência de coisas sérias, ou a ironia o abandonará (se ela for algo ocasional), ou então ela ganhará força (se lhe pertencer como algo inato) e se converterá em uma ferramenta séria, assumindo seu lugar no encadeamento dos recursos com os quais o senhor terá de construir sua arte." (...)

RILKE, CARTAS A UM JOVEM POETA

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Rainer Maria Rilke (1875-1926) foi um grande poeta nascido em Praga, sendo um dos autores alemães mais conhecidos no Brasil e tendo influenciado muitas gerações de poetas. Teve excelentes traduções de seus textos feitos por alguns dos maiores nomes da poesia brasileira, entre eles, Manuel Bandeira (Torso Arcaico de Apolo) e Cecília Meireles (A Canção de Amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristovão Rilke).

No livro, Cartas a um jovem poeta, destinadas originalmente à Franz Xaver Kappus, Rilke mostra toda sua genialidade dando conselhos ao jovem que aspirava ser poeta.

São dez cartas abordando temas como a crítica, necessidade de criar, auto-conhecimento, solidão, amor, paciência, pobreza, sexo, amadurecimento, arte, etc.

Hoje falarei da primeira carta, escrita em Paris no dia 17 de fevereiro de 1903, onde Rilke fala sobre a crítica e o auto-conhecimento.

"(...)Não posso entrar em considerações sobre a forma dos seus versos; pois me afasto de qualquer intenção crítica. Não há nada que toque menos uma obra de arte do que as palavras de crítica: elas não passam de mal entendidos mais ou menos afortunados. As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou, e mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas , cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa.

(...)

O senhor me pergunta se os seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Envia os seus versos para revistas. Faz comparações entre eles e outros poemas e se inquieta quando um ou outro redator recusa suas tentativas de publicação. Agora (como me deu licença de aconselhá-lo) lhe peço para desistir de tudo isso. O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não deveria fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas uma meio. Volte-se para si mesmo.

(...)

E se, desse ato de se voltar para dentro de si, desse aprofundamento em seu próprio mundo, resultarem versos, o senhor não pensará em perguntar a alguém se são bons versos. Também não tentará despertar o interesse de revistas por tais trabalhos, pois verá neles seu querido patrimônio natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade. É no modo como ela se origina que se encontra o seu valor, não há nenhum outro critério."

MAIS DICAS DO TOSCANA

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Como vocês podem ver, o livro do David Toscana "O Último Leitor" é uma fonte riquíssima de dicas literárias, hoje vou postar mais um pouquinho, mas quem puder ler o livro na íntegra eu recomendo muito que o faça.


Pg 89, Lucio revoltado:
"A mulher se aproxima de Lucio. Você não parece muito contente. Ele senta no chão e esfrega as mãos na areia. Todos buscam o final feliz, o rosto sorridente, romper com o destino natural, evitar a tragédia; perseguem coisas banais e insossas, leves e afeminadas: recusam-se a fazer literatura."

pg 101, conhecendo um bom romance: "Lucio decide ler o último parágrafo porque sabe que um bom final é sinal de um bom romance. Com os começos não acontece a mesma coisa."

pg 105, pleonasmos: "... para que você diz pequenas gotículas se a gotícula já é pequena sem o adjetivo?"

pg 109, sobre analogias (e sobrou até pra Bíblia, hehehe): "Em seguida o anjo me mostrou um rio de água de vida, claro como cristal, Claro como cristal? questiona Lucio, não conheço analogia mais medíocre, talvez a de alguns narradores nórdicos que falam de rostos brancos como a neve sem pensar no povo do deserto que jamais viu nevar. (...) Em que pese receio pelas analogias, Lucio quase nunca condena um livro ao inferno por mais ordinários que sejam, nem mesmo quando, em vez de precisar, desorientam o leitor: sentiu-se como se o mundo desabasse sobre sua cabeça, como o último homem da terra, idéias incabíveis para Lucio, palavras vazias mas toleráveis".

pg 110, "só entregava o romance imediatamente para as baratas, sem se importar com o quanto estivesse lhe parecendo atraente, quando o autor recorria ao cinema para se fazer entender. Duas semanas atrás condenou um romance por esse motivo: Ao pegá-la pela mão, James sorriu como Peter O'Donohue em O Vale das Gaivotas, que Mary Anne tinha visto pelo menos dez vezes na enorme tela do cinema da rua oito. E como vou imaginar esse sorriso?, exclamou Lucio, que há anos não entrava numa sala de cinema. (...) Despreza o cinema, mas sua aversão por esses autores se baseia em outra coisa. Não merecem ser chamados de escritores, pensa, se em vez de se darem ao trabalho de descrever um sorriso, um penteado, um olhar, uma atitude, preferem me mandar ver um filme".

Espero que as dicas tenham sido tão úteis como foram para mim!

Abraços!

MAIS DICAS DO "ÚLTIMO LEITOR"

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Como eu já disse no post anterior, o livro "O Último Leitor" de David Toscana traz várias dicas sobre o que é bom ou não nos livros. Já vimos alguns exemplos, hoje vamos ver mais alguns:

Na pg 41 ele critica o excesso de adjetivos: "Santín mata o menino com uma facada; fala da cara de horror do menino, dos seus olhos abertos como pratos; narra as cenas de violência como os escritores costumam fazer: mencionam o sangue e o horror, mas não se notam nem uma coisa nem outra, por isso incham suas descrições com adjetivos. Lucio levanta a voz; fala como se estivesse diante de uma multidão. Onde os escritores aprendem a matar e morrer? No cinema, onde ninguém morre como a gente morre?"

Na pg 50 o ultimo leitor critica o "apelo ao consumismo": "Além disso, sente-se à vontade com os autores mortos porque descrevem os objetos sem apelar para o consumismo do leitor. A frase Antes de sair, Robert colocou um Giorgio Belli, o preto, o preferido de Emily foi suficiente para que Lucio descartasse "Espelhos de Vida", sem esperar para verificar se Robert tinha posto um paletó ou um chapéu. Acha que um romance se suja menos quando o leitor come em cima dele do que quando o autor menciona a marca da calça de um personagem, ou do seu perfume, ou dos óculos ou gravata ou do vinho francês que bebe em tal ou qual restaurante; os romances ficam manchados com a simples menção de um cartão de crédito, de um automóvel ou da televisão."

Nas pgs 68 e 69 mais algumas colocações: "Do que você está falando?, perguntou Remigio. Lucio olha para ele com desagrado. Destesta este do que você está falando?, um recurso desgastado de alguns autores para criar um diálogo no qual seria melhor respeitar o silêncio, deixar as coisas subentendidas. Não sei do que você está falando, diz Perkins, e o inspetor Fitzpatrick precisa contar como descobriu o culpado, num inventário de rastros, pistas e contradições que não são para Perkins, mas para o leitor."

"Desde que Folsom morreu, o gringos deram para escrever melodramas sobre pais egoístasou viciados ou cheios de manias e filhos que sofrem as consequências. Toda uma geração de escritores dedicada a denegrir seus pais."


E, para descontrair um pouco e terminar as dicas de hoje, pg 87: "Eu acabo de me desfazer de "O outono em Madri", diz Lucio, estava na página sessenta e três; ficaram duzentas e oito sem ler. Eu não passei da vinte diz ela. Para que um tédio desse chegue a Icamole se requer a cumplicidade de autor, corretores, editores, impressores, livreiros e até de leitores; isso sem contar a parceira do autor, que lhe diz sim, meu amor, você escreve muito bem, sim. Delinquência organizada, diz ele."

Abraços e até mais!!!

DICAS EXTRAÍDAS DO LIVRO O ULTIMO LEITOR

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Como eu já disse ontem, o livro "O Último Leitor" de David Toscana, nos traz muitas reflexões sobre a maneira de escrever um romance. Nele o persongagem principal, Lucio, dá dicas do que gosta e do que não gosta nos livros que leu.

Logo nas pgs 11 e 12 ele faz sua primeira crítica ao romance fictício entitulado: "As cores do Céu" de Brian MacAllister

(...) " Sabe o que o espera, traste dos infernos? O negro negou com a cabeça embora sua expressão de horror revelasse que sabia muito bem o que o esperava. Os dois o levaram à barreira e o fizeram ver com terror as àguas que Murdoch acabava de observar com prazer. O negro parou de lutar. Preferia acabar com tudo de uma vez por todas a continuar aguentando a humilhação de ser arrastado como um cachorro, desviando-se das fezes dos cavalos, ouvindo conversas de bêbados. Você quer dizer alguma coisa antes de enfrentar seu destino?, perguntou Murdoch. O negro disse que sim e, tentando fazer com que sua voz não tremesse, falou: Há um Deus que não diferecia as cores da pele, que ama igualmente negros e brancos... Lucio bufa e fecha abruptamente o livro. Duzentas páginas para que esse negro venha dar lição de moral feito uma freira."

em seguida faz mais algumas colocações sobre a superficialidade de algumas expressões como "horror":

(...) "Uma mulher passa com meio quilo de tortilhas, e Lucio fica com água na boca. Ela o cumprimenta com um sorriso sem palavras; ele responde que MacAllister é um incompetente, e agora em voz baixa, só para si, continua: Olhe que mencionar a expressão de horror do negro e não se aprofundar nisso... devia ter dito como tremiam seus lábios vermelhos e grossos e rachados com fios de baba, ou pelo menos como a lua brilhava no branco dos seus olhos. A palavra horror é uma ilusão do escritor, pretende criar uma tensão inexistente, porque é obvio que o negro não vai morrer, tudo é tão óbvio (...)

Na pg 14 Lucio dá mais algumas dicas sobre o uso de nomes estrangeiros nos livros:

"Abre um livro e começa a ler. Tomou cuidado para que fosse um romance recente, pois estes não se preocupam mais em escrever os detalhes de um prato (...) no dia anterior já tinha descartado um romance desses. O narrador se sentava à mesa e dizia: Sara escolheu uma explêndida garrafa de Château Certan-Marzelle 98 para acompanhar a salada périgourdine, a cocotte de porc à l'ananas e o brie de Coulommiers, e como sobre mesa mandou que fossem servidos crêpes aux moules preparados com um magnífico vin de paille. Essas linhas e a descrição que seguia sobre mais quitutes e garrafas e vocábulos em itálico não provocaram a menor reação no seu estômago. Para mim, com esses nomes estrangeiros, dá na mesma se estão falando de comida ou de peças de reposição para uma máquina; as garrafas poderiam ser de óleo e talvez cocotte fosse uma engrenagem. Censurou o romance na página trinta e nove."

Na página 19 continua:

"Para não parecer muito ansioso, Lucio abre de novo "O Outono em Madri" e passa, por uns segundos, os olhos pelas frases. Natália, minha Natália, eu lhe disse umas cem vezes que a cidade é uma vitrine na qual se exibem minhas tristezas, minha falta de você, minha incapacidade de perceber qualquer beleza que não venha do seu rosto. Para mim basta dizer uma vez só, diz Lucio e tira da gaveta o carimbo de censurado.

Por outro lado, na pg 24 ele elogia o final do livro "A morte de Babette" que termina com essa frase: "Sinetas, gritos e sinos; gritos dentro e gritos fora e mais sinos, pobre Babette, pobre de você, sinos e mais sinos, um país que acredita que é livre, uma menina que não acredita em nada. Uma história não pode terminar assim, protesta Remigio. Claro que pode, e não há dúvida sobre o final. Pierre Laffitte já diz isso no título, então evita repeti-lo na trama."

E também na pg 27 fala do livro "Os peixes da terra" no qual ele finalmente encontra algo que lhe é familiar, algo que condiz com sua realidade, (...) "não ficou seduzido pela trama sobra Fritz e Petra, um casal que visita vários lugares em busca de um local para viver (...), no entanto, quando estava prestes a abandonar a leitura, o casal chegou a um lugar que Lucio teve certeza que era Icamole." (cidade onde ele morava)

Para finalizar o post de hoje o comentário muito pertinente da pg 33, quando Lucio está falando do romance "A macieira": "E pensar que estive a ponto de censurar esse romance, diz Lucio, só se salvou porque o pênis do protagonista é curto, e isso me parece insólito; em geral os escritores querem se ver em seus personagens e falam em enormes membros e amantes perfeitos e ereções monstruosas."

Amanhã mais dicas com esse ótimo livro do David Toscana!

Abraços!

O ÚLTIMO LEITOR

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Na Oficina de Narrativas Longas que estou fazendo com o Paulo Sandrini, estamos estudando o livro "O Último Leitor" de David Toscana.

O livro é ótimo tanto para quem quer apenas uma boa distração, como para quem deseja aprender um pouco mais sobre o ato da escrita, visto que o persongem principal do livro dá várias dicas de coisas boas e ruins nos livros que ele já leu. Para escritores iniciantes como eu, é muito interessante perceber as críticas que ele faz para não cometer esses mesmos erros!

Amanhã mais detalhes sobre esse livro! Aconselho a todos que leiam!

Abraços.

DICAS PARA CURITIBANOS

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Além das oficinas de criação literária que estão acontecendo na cidade de Curitiba-PR, com inscrições até 12/03 pela Fundação Cultural de Curitiba, no Palacete Wolf também acontecerão durante todo o ano, ciclos especiais de leitura. Quem gosta de literatura e pretende aprender mais sobre as grandes obras deve aproveitar a oportunidade!

Para conhecer as oficinas, ciclos e demais atividades, pode-se verificar o site da FCC: www.fccdigital.com.br

O endereço do Palacete Wolf é: Praça Garibaldi 7 Centro fone: 3321-3309

ETAPAS DA JORNADA (12)

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Texto extraído do Livro "A Jornada do Escritor" de Christopher Vogler.

12. Retorno com o Elixir

O herói retorna ao Mundo Comum, mas a jornada não tem sentido se ele não trouxer de volta um Elixir, tesouro ou lição do Mundo Especial. O Elixir é uma poção mágica com o poder de curar. Pode ser um grande tesouro, como o Graal, que, magicamente, cura a terra ferida, ou pode, simplesmente, ser um conhecimento ou experiência que algum dia poderá ser útil à comunidade.
Dorothy volta ao Kansas com a certeza de que é amada e de que "Não há lugar melhor que o nosso lar". E.T. volta para casa com a experiência da amizade com os humanos. Luke Skywalker derrota Darth Vader (por enquanto) e restaura a paz e a ordem na galáxia.
Zack Mayo ganha sua patente e deixa o Mundo Especial da base de treinamento com uma nova perspectiva. Em seu uniforme de oficial novo em folha (e uma nova atitude que combina com ele), ele literalmente arrebata a namorada e a carrega consigo.
Algumas vezes, o Elixir é o tesouro conquistado na busca, mas pode ser o amor, a liberdade, a sabedoria, ou o conhecimento de que o Mundo Especial existe, mas se pode sobreviver a ele. Outras vezes, o Elixir é apenas uma volta para casa, com uma boa história para contar.
A não ser que conquiste alguma coisa na provação que enfrenta na Caverna Oculta, o herói está fadado a repetir a aventura. Muitas comédias usam esse final, quando um personagem tolo se recusa a aprender sua lição e embarca na mesma bobagem que o meteu em trapalhadas da outra vez.

Para recapitular a Jornada do Herói:

1. Os heróis são apresentados no mundo comum, onde
2. recebem um chamado à aventura.
3. Primeiro, ficam relutantes ou recusam o chamado, mas
4. num Encontro com o mentor são encorajados a fazer a
5. travessia do primeiro limiar e entrar no Mundo Especial, onde
6. encontram testes, aliados e inimigos.
7. Na aproximação da caverna oculta, cruzam um Segundo Limiar,
8. onde enfrentam a provação.
9. Ganham sua recompensa e
10. são perseguidos no caminho de volta ao Mundo Comum.
11. Cruzam então o Terceiro Limiar, experimentam uma ressurreição e são transformados pela experiência.
12. Chega então o momento do retorno com o elixir, a bênção ou o tesouro que beneficia o Mundo Comum.

A Jornada do Herói é uma armação, um esqueleto, que deve ser preenchido com os detalhes e surpresas de cada história individual. A estrutura não deve chamar a atenção, nem deve ser seguida com rigidez demais. A ordem dos estágios que citamos aqui é apenas uma das variações possíveis. Alguns podem ser eliminados, outros podem ser acrescentados. Podem ser embaralhados. Nada disso faz com que percam seu poder.

ETAPAS DA JORNADA (11)

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Texto extraído do Livro "A Jornada do Escritor" de Christopher Vogler.

11. Ressurreição

Antigamente, os caçadores e guerreiros tinham que se purificar antes de voltar a suas comunidades, porque tinham sangue nas mãos. O herói que esteve no reino dos mortos deve renascer e se depurar, em uma última Provação de morte e Ressurreição, antes de voltar ao Mundo Comum dos vivos.
Muitas vezes, este é um segundo momento de vida-ou-morte, quase uma repetição da morte e renascimento da Provação. A morte e a escuridão fazem um último esforço desesperado, antes de serem finalmente derrotadas. É uma espécie de exame final do herói, que deve ser posto à prova, ainda uma vez, para ver se realmente aprendeu as lições da Provação.
O herói se transforma, graças a esses momentos de morte-e-renascimento, e assim pode voltar à vida comum como um novo ser, com um novo entendimento.
Os filmes da série Guerra nas estrelas brincam o tempo todo com esse elemento. Os três filmes da série mostram uma cena final de batalha, em que Luke quase morre, parece estar morto por um momento, e depois sobrevive miraculosamente. Cada nova provação lhe dá mais conhecimento e mais domínio da Força. Sua experiência o transforma em um novo ser.
Axel Foley, na seqüência do clímax de Um tira da pesada, torna a enfrentar a morte nas mãos do vilão, mas é salvo pela intervenção da força policial de Beverly Hills. Emerge da experiência com maior respeito pela corporação, e se torna um ser humano mais completo.
A força do destino oferece uma série mais complexa de testes finais, e o herói enfrenta a morte de variadas maneiras. O egoísmo de Zach morre quando ele desiste da oportunidade de ganhar um troféu atlético pessoal, em favor de ajudar outro cadete a vencer um obstáculo. Sua relação com a namorada parece ter morrido, e ele tem que sobreviver ao golpe esmagador do suicídio do seu melhor amigo. E, como se não bastasse, ainda tem que travar uma batalha final, cara a cara, de vida ou morte, com o instrutor. Mas sobrevive a tudo, e se transforma no galante "oficial e cavalheiro" de que fala o título em inglês.

ETAPAS DA JORNADA (10)

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Texto extraído do Livro "A Jornada do Escritor" de Christopher Vogler.

10. Caminho de Volta

Mas o herói ainda não saiu do bosque. Estamos passando agora para o terceiro ato, no qual ele começa a lidar com as conseqüências de ter-se confrontado com as forças obscuras da Provação. Se ainda não conseguiu se reconciliar com os pais, os deuses, ou as forças hostis, estes podem vir furiosos ao seu encalço. Algumas das melhores cenas de perseguição surgem nesse ponto, quando o herói é perseguido no Caminho de Volta pelas forças vingadoras que ele perturbou ao apanhar a espada, o elixir ou o tesouro.
Assim, Luke e Leia são furiosamente perseguidos por Darth Vader quando escapam da Estrela da Morte. O Caminho de Volta em E.T. é o vôo de bicicleta ao luar, quando fogem de Keys (Peter Coyote), que representa a autoridade governamental repressiva.
Essa fase marca a decisão de voltar ao Mundo Comum. O herói compreende que, em algum momento, vai ter que deixar para trás o Mundo Especial, e que ainda há perigos, tentações e testes à sua frente.

ETAPAS DA JORNADA (9)

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Texto extraído do Livro "A Jornada do Escritor" de Christopher Vogler.

9. Recompensa (Apanhando a Espada)

Após sobreviver à morte, derrotar o dragão ou liquidar o Minotauro, o herói e a platéia têm motivos para celebrar. O herói, então, pode se apossar do tesouro que veio buscar, sua Recompensa. Pode ser uma arma especial, como uma espada mágica, ou um símbolo, como o Santo Graal, ou um elixir que irá curar a terra ferida.
Por vezes a "espada" é o conhecimento e a experiência que conduzem a uma compreensão maior e a uma reconciliação com as forças hostis.
Em Guerra nas estrelas, Luke salva a princesa Leia e captura os planos da Estrela da Morte, fundamentais para derrotar Darth Vader.
Dorothy escapa do castelo da Bruxa Malvada com a vassoura da Bruxa e os sapatinhos de rubi, importantes para voltar para casa.
Nesse ponto, o herói também pode solucionar um conflito com um de seus pais. Em O retorno de jedi, Luke se reconcilia com Darth Vader, que acaba revelando ser seu pai e, no fim das contas, um sujeito não tão mau.
O herói também pode se reconciliar com o sexo oposto, como ocorre nas comédias românticas. Em muitas histórias, a amada é o tesouro que o herói veio conquistar ou salvar, e geralmente nesse ponto há uma cena de amor, que celebra a vitória.
Do ponto de vista do herói, os membros do sexo oposto podem parecer Camaleão, um arquétipo de mudança. Parecem estar sempre transformando-se em outra coisa, mudando de forma ou idade, refletindo os aspectos sempre cambiantes do sexo oposto. Contos de vampiros, lobisomens e outros personagens que se transformam são ecos simbólicos dessa qualidade de mudança, que homens e mulheres vêem uns nos outros.
A Provação do herói pode assegurar a ele uma compreensão maior do sexo oposto, uma capacidade de ver além da aparência exterior que se transforma. E, com isso, pode levar a uma reconciliação.
O herói também pode se tornar mais atraente, em razão de ter sobrevivido à Provação. Conquistou o título de "herói" por ter corrido riscos extremos em favor de sua comunidade.

ETAPAS DA JORNADA (8)

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Texto extraído do Livro "A Jornada do Escritor" de Christopher Vogler.

8. A Provação


Aqui se joga a sorte do herói, num confronto direto com seu maior medo. Ele enfrenta a possibilidade da morte e é levado ao extremo numa batalha contra uma força hostil. A Provação é um "momento sinistro" para a platéia, pois ficamos em suspense e em tensão, sem saber se ele vive ou morre. O herói, como Jonas, está "no ventre da fera".
Em Guerra nas estrelas, é o momento terrível, nas entranhas da Estrela da Morte, em que Luke, Leia e seus amigos são aprisionados no gigantesco triturador de lixo. Luke é puxado para baixo pelos tentáculos do monstro que vive no esgoto, e é mantido tanto tempo lá dentro que a platéia começa a se perguntar se ele morreu. Em E.T., o adorável alienígena, momentaneamente, parece morrer na mesa de operação. Em O Mágico de Oz, Dorothy e os amigos caem na armadilha da Bruxa Malvada e parece que não têm saída. Nesse ponto de Um tira da pesada, Alex Foley está nas mãos dos homens do vilão, com uma arma apontada para a cabeça.
Em A força do destino, Zack Mayo vive sua Provação quando seu instrutor na Marinha o submete a um programa duríssimo, para atormentá-lo e humilhá-lo até que ele entregue os pontos. É um momento de vida-ou-morte psicológica, porque, se ele desistir, estará matando suas chances de vir a ser considerado um oficial e um cavalheiro. Mayo sobrevive à provação quando se recusa a desistir, e a provação o transforma. O sargento-instrutor, um Velho Sábio muito esperto, forçou-o a admitir sua dependência em relação aos outros, e a partir desse momento ele fica menos egoísta e passa a colaborar mais.
Nas comédias românticas, a morte que o herói enfrenta pode ser simplesmente a morte temporária da relação, como ocorre no segundo movimento do velho enredo que se resume em "O rapaz encontra a garota, o rapaz perde a garota, o rapaz ganha a garota". As probabilidades de que o herói fique ligado a seu objeto de afeição parecem mais remotas do que nunca.
Esse é um momento crítico em qualquer história. É uma Provação em que o herói tem de morrer ou parecer que morre, para poder renascer em seguida. É uma das principais fontes da magia do mito heróico. As experiências dos estágios precedentes levaram a platéia a se identificar com o herói e seu destino. O que acontece com ele está acontecendo conosco. Somos encorajados a viver com ele esse momento de iminência de morte. Nossas emoções são temporariamente deprimidas, para poderem reviver no "quando o herói retorna da morte". O resultado desse reviver é uma sensação de entusiasmo e euforia.
Quem planeja parque de diversões sabe empregar esse princípio. As montanhas-russas fazem seus passageiros acharem que vão morrer, e desencadeiam uma grande emoção, que deriva de roçar na morte e sobreviver a ela. Nunca se está mais vivo do que quando se olha a morte de perto.
Esse também é o elemento-chave nos ritos de passagem ou rituais de iniciação de confrarias e sociedades secretas. O iniciante é forçado a sentir o gosto da morte em alguma experiência terrível, e, depois, lhe é permitido que viva a ressurreição, renascendo como novo membro do grupo. O herói de cada história é um iniciante, sendo introduzido nos mistérios da vida e da morte.
Toda história necessita de um momento de vida-ou-morte, no qual o herói ou seus objetivos estão frente a um perigo mortal.
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