RILKE, CARTA 9

||
BOM PESSOAL, ESTAMOS QUASE NO FIM DAS 1O CARTAS QUE O GRANDE ESCRITOR RAINER MARIA RILKE ESCREVEU AO JOVEM FRANZ KAPPUS, ESPERO QUE VOCÊ ESTEJAM APROVEITANDO ESSA IMENSA FONTE DE DELEITE E APRENDIZADO QUE SÃO ESSAS CARTAS DA MESMA FORMA QUE EU APROVEITO.

ESSA É A CARTA NÚMERO 9 DATADA DE 04 DE NOVEMBRO DE 1904, ATUALÍSSIMA, COMO TUDO QUE RILKE ESCREVEU.

"É sempre o que eu já disse, sempre o desejo de que o senhor descubra em si mesmo paciência o bastante para suportar e simplicidade o bastante para acreditar. Que o senhor ganhe mais e mais confiança para aquilo que é difícil, para a sua solidão em meio aos outros. De resto, deixe a vida acontecer. Acredite em mim: a vida tem razão, em todos os casos."

"Sua tendência para a dúvida pode se tornar uma boa qualidade se o senhor a educar. Ela precisa se tornar um saber, precisa se tornar crítica. Pergunte a ela, a cada vez que quiser estragar algo seu, por que algo é feio, exija provas dela, teste-a, e o senhor talvez a deixe indecisa e confusa, talvez revoltada. Mas não desista, reivindique argumentos e aja assim, de modo atento e coerente, a cada vez. Dessa maneira chegará o dia em que sua dúvida se converterá de uma distribuidora em sua melhor colaboradora - talvez a mais esperta no meio de tudo aquilo que trabalha na construção de sua vida".

RILKE, CARTA 8

||
Carta 8, datada de 12 de agosto de 1904, de Rilke para Kappus.

"Se nos fosse possível ver além do alcance do nosso saber, e ainda um pouco além da obra preparatória do nosso pressentimento, talvez suportássemos as nossas tristezas com mais confiança do que nossas alegrias. Pois elas são os instantes em que algo de novo penetrou em nós, algo conhecido; nossos sentimentos se calam em um acanhamento tímido, tudo em nós recua, surge uma quietude, e o novo, que ninguém conhece, é encontrado bem ali no meio, em silêncio.

Acredito que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão, que sentimos como uma paralisia porque não ouvimos ecoar a vida dos nossos sentimentos que se tornam estranhos para nós. Isso porque estamos no meio de uma transição, em um ponto no qual não podemos permanecer. (...)

Não somos capazes de dizer quem chegou, talvez nunca chegamos a saber, mas vários sinais indicam que o futuro entra em nós dessa maneira, para se transformar em nós muito antes de acontecer. Por isso é tão importante estar sozinho e atento quando se está triste: porque o instante aparentemente parado, sem nenhum acontecimento, no qual o nosso futuro entra em nós, está bem mais próximo da vida do que acontece como que vindo de fora. (...)

É necessário que isso ocorra. É necessário - e dessa maneira se dá aos poucos nossa evolução. (...)

No fundo é esta a única coragem que se exige em nós: sermos corajosos diante do que é estranho, mais maravilhoso e mais inexplicável entre tudo com que nos deparamos. (...)

É preciso ter paciência como um doente e ter confiança como um convalescente, pois talvez o senhor seja ambas as coisas. Mais ainda: o senhor também é o médico que tem de tratar de si mesmo. Mas em toda doença há muitos dias em que o médico não pode fazer nada além de esperar. E é isso, mais do que qualquer coisa, que o senhor, por ser seu próprio médico, precisa fazer agora. Não se observe demais. Não tire conclusões demasiado apressadas daquilo que lhe acontece; deixe simplesmente as coisas acontecerem. (...)

Se ainda posso acrescentar algo, é o seguinte: não acredite que quem procura consolá-lo vive seme sforço, em meio às palavras simples e tranquilas que às vezes lhe fazem bem. A vida dele tem muita labuta e muita tristeza e permanece muito atrás dessas coisas. Se fosse de outra maneira, nunca teria encontrado aquelas palavras."

RILKE, CARTA 7

||
Na 7ª carta, datada de 14 de maio de 1904, Rilke salienta para Kappus a necessidade da solidão e do amor para o auto-conhecimento e amadurecimento do artista/pessoa humana.

"Não se deixe enganar por sua solidão só porque há algo no senhor que deseja sair dela. Justamente esse desejo o ajudará, caso o senhor o utilize com calma e ponderação, como um instrumento para estender sua solidão por um território mais vasto. As pessoas (com o auxilio das convenções) resolveram tudo da maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade; contudo é evidente que precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que vive se aferra ao difícil, tudo na vida cresce e se defende a seu modo e se constitui em algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda resitência. Sabemos muito pouco, mas que temos de nos aferrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la.Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda não podem amar: precisam aprender o amor. Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens precisam aprender a amar. Mas o tempo de aprendizado é sempre um longo período de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida, isolamento intenso e profundo para quem ama. A princípio o amor não é nada do que se chama ser absorvido, entregar-se e se unir com outra pessoa. (Pois o que seria uma união do que não é esclarecido, do inacabado, do desordenado?) O amor constitui uma oportunidade sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de uma outra pessoa; é uma grande exigência para o indivíduo, uma exigência irrestrita, algo que o destaca e o convoca para longe. Apenas neste sentido, como tarefa de trabalhar em si mesmos ("escutar e bater dia e noite"), as pessoas jovens deveriam fazer uso do amor que lhes é dado. A absorção e a entrega e todo tipo de comunhão não são para eles (que ainda precisam economizar e acumular por muito tempo); a comunhão é o passo final, talvez uma meta para a qual a vida humana quase não seja o bastante. É aí que os jovens erram com frequência, gravemente: pelo fato de eles (faz parte de sua natureza não ter paciência alguma) se atirarem uns para os outros quando o amor vem, derramando-se da maneira como são, em todo o seu dsgoverno, na desordem, na confusão(...) De fato muitos jovens que amam de modo falso, ou seja, simplesmente entregando-se, sem preservar a solidão (a maioria nunca passará disso), sentem a opressão de um erro e querem, de uma maneira própria e pessoal, tornr vívida e fértil a situação em que se precipitaram.
(...) Quem observa com seriedade descobre que, assim como para a morte, que é difícil, também para o difícil amor não se reconheceu ainda nenhum esclarecimento, nenhuma solução, nem aceno, nem caminho. Para essas duas tarefas, que carregamos e transmitimos secretamente sem esclarecer, nunca se achará uma regra comum baseada em um acordo. Contudo, à medida que começamos a tentar ver a vida como indivíduos, essas grandes coisas se aproximam muito de nós, os solitários. As exigências que o difícil trabalho do amor impõe ao nosso desenvolvimento são sobre-humanas, e nós, como iniciantes, não podemos estar à altura delas. Mas se perseveramos e assumimos esse amor como uma carga e uma período de aprendizado, em vez de nos perdermos em todo o jogo fácil e frívolo atrás do qual as pessoas se esconderam da mais séria gravidade de sua existência, talvez se perceba um pequeno avanço e um alívio para aqueles que virão muito depois de nós; e isso já seria muito.
(...) E esse amor mais humano (que se reaizará de modo infinitamente delicado e discreto, certo e claro, em laços atados e desatados) será semelhante àquele que nós preparamos, lutando co esforço, portanto ao amor que consiste na proteção mútua, na delimitação e saudação de duas solidões. E ainda isto: não creia que aquele grande amor que um dia se impôs ao senhor, quando garoto, perdeu-se. Será possível saber com ceteza se, naquele tempo, não amadureceram grandes e belos desjos, propósitos dos quais o senhor vive ainda hoje? Acredito que aquele amor permanece tão forte e intenso na sua lembrança poruqe foi sua primeira solidão profunda, o primeiro trabalho íntimo com que o senhor elaborou sua vida."

RILKE, CARTAS 5 E 6

||
Na carta 5 de 29 de outubro de 1903, Rilke apenas descreve sua mudança para a cidade de Roma e se compromente a escrever outra carta maior ao seu amigo, por isso vamos direto para a carta 6, mais uma das cartas do grande poeta para nossa apreciação. Data: 23 de dezembro de 1903, e continua sendo atual para nós...

"Existe apenas uma solidão, e ela é grande, nada fácil de suportar. Acabam chegando horas em que quase todos gostariam de trocá-la por uma união qualquer, por mais banal e sem valor que seja, trocá-la pela aparência de uma mínima concordância com o próximo, mesmo que com a pessoa mais indigna... No entanto, talvez sejam justamente essas as horas em que a solidão cresce, pois o seu crescimento é doloroso como o de um menino e triste como o início da primavera. Mas isso não deve confundí-lo, O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como era quando criança, quando os adultos passavam pra lá e pra cá, em coisas que pareciam importantes e grandiosas, porque esses adultos davam a impressão de estarem ocupados e porque a criança não entendia nada de seus afazeres. E, um dia percebem que suas ocupações são mesquinhas, que suas profissões são enrijecidas e não estão mais ligadas à vida(...)"

RILKE, CARTA 4

||
Ao longo dos últimos dias tenho postado aqui as cartas de Rilke para o jovem poeta Franz Kappus, extraídas do livro: "Cartas a um jovem poeta" de Rilke, espero que as reflexões contidas nestas cartas possam ajudar a todos nós em nosso amadurecimento na arte de escrever.

Hoje selecionei alguns trechos da 4° carta, datada de 16 de julho de 1903.

(...) "A idéia de ser um criador, de gerar, de formar não é nada sem a sua contínua e grandiosa confirmação e realização no mundo, nada sem o consenso mil vezes repetido por parte das coisas e dos animais. E só por isso o seu gozo é tão indiscritivelmente belo e rico, porque é feito das recordações herdadas da geração e da gestação de milhões de seres. Em um pensamento criador revivem milhares de noites de amor esquecidas que o preenchem com altivez e elevação. Assim, aqueles que se juntam durante as noites e se entrelaçam em uma volúpia agitada fazem um trabaho sério, reúnem doçuras, profundidade e força para a acanção de algum poeta vindouro que surgirá para expressar deleites indizíveis. Eles convocam o futuro; mesmo que errem e se abracem cegamente, o futuro virá apesar de tudo, um novo homem se elevará, e a partir do acaso que parece se realizar aqui desponta a lei pela qual um germe forte e resistente se lança em direção ao óvulo, que vem receptivo a seu encontro." (...)

(...) "Alegre-se com seu crescimento, para o qual não pode levar ninguém junto, e seja bondoso com aqueles que ficam para trás, seja seguro e tranquilo diante deles, sem preturbá-los com suas dúvidas nem assustá-los com uma confiança ou alegria que eles não poderiam compreender. Procure constituir com eles algum tipo de comunhão simples e fiel, que não precise ser alterada à medida que o senhor mesmo se modifica cada vez mais." (...)
© Francine Cruz - 2012. Todos os direitos reservados.
Criado por: Ana Zuky.
Tecnologia do Blogger.
imagem-logo